“A desigualdade de género prejudica todos”

Nas comemorações do Dia Internacional da Mulher, Ana Catarina Pereira organizou uma conversa entre mulheres que fomentam eventos culturais na Covilhã e na região. A professora da Universidade da Beira Interior realça que ainda existem muitas desigualdades de género em pleno século XXI.

Homem e mulher assumem hoje definições distintas?

Infelizmente, sim. Nos anos 50, Simone de Beauvoir veio dizer que o ponto de vista masculino era universal e, quando um falava, falava por todos. Quando uma mulher falava, falava só por si. Acho que nós continuamos a associar o conhecimento, o poder, o saber, de uma forma geral, ao homem.

Por que é que ainda se vive esta realidade no século XXI?

É muito triste. Em pleno século XXI, já depois de inúmeras lutas, anos de democracia, várias legislações, e nós continuamos a discutir estas questões. Ainda é necessário que reunamos um conjunto de oito mulheres, por exemplo, para discutir os seus percursos enquanto programadoras culturais, mulheres que exercem algum cargo. E, sobretudo, mulheres que têm de lidar com muitos homens em cargos de poder.

Ana Catarina Pereira
Ana Catarina Pereira

Esta diferença entre os dois géneros é prejudicial para todos. Enquanto nós não temos lugar na esfera pública, eles têm dificuldade na esfera privada. É muito difícil para um homem mostrar algum tipo de emoções, ser mais cuidador em relação aos filhos, ter uma relação mais presente na vida deles. Por exemplo, em casos de divórcio o homem é afastado da educação dos filhos. Já há casais que têm guardas partilhadas, mas não são a maioria. Isso também é assustador.

Mas para as mulheres continua a ser imensamente castrador no que toca a objetivos de carreira, que são absolutamente legítimos. É perfeitamente justo que eu tenha tantas ambições como um colega meu e que tenha as mesmas oportunidades que ele.

Como surgiu a iniciativa de organizar esta mesa redonda em torno da “produção cultural feita por elas”?

O objetivo foi inspirar. Necessitamos de exemplos, de mulheres que tenham conseguido. Não precisam de ser mulheres iguais a nós. Precisam é de ser mulheres que consigamos admirar, ver o percurso e pensar: eu também consigo. Estou-me a lembrar da Marisa Matias, que esteve há pouco tempo cá na universidade e deu um testemunho interessante. É deputada, no Parlamento Europeu, e disse que recebe imensas cartas de crianças a falarem da admiração que têm por ela. Nós temos de ter mais exemplos, porque se queremos seguir uma carreira política e olhamos para a Assembleia e só vemos homens, se queremos seguir jornalismo e olhamos para a redação de um jornal e só vemos homens, vamos estar sempre diminuídas naquilo que estamos a fazer.

Já sentiu dificuldades por ser mulher?

Sim, em entrevistas de trabalho, por exemplo. Percebi quem eram as pessoas preteridas, e normalmente eram mulheres. Normalmente eram os homens que ocupavam esses cargos.

Como é que vê um gestor cultural?

É uma pessoa com ótima cultura geral, que conhece todas as áreas, que é multifacetada. Tem que ter ideias e ir percebendo que, quando o seu plano A não funciona, passa ao B ou ao C. É capaz de contornar obstáculos, é persistente, tem contactos, é sociável e tem facilidade de comunicação.

Qual é a importância de promover cultura no Interior?

É determinante. Hoje em dia ela já está mais disseminada, mas há 30 anos não estava. O Interior estava muito esquecido dos órgãos de poder nacional, não chegava aqui nada, não havia concertos, não havia teatro. Há uma série de agentes culturais que estão a trabalhar nesta região, que não estavam antes. Acho que a Covilhã se tornou numa cidade mais apelativa, que está a educar os espectadores para o consumo de bens culturais: o teatro, a música, a dança.

Acha que os eventos promovidos por homens têm mais adesão?

Não sou assim tão pessimista. O que acontece é que as pessoas estão mais habituadas a ver homens em órgãos de poder e estranham quando há uma mulher num cargo. Nos países nórdicos, as mulheres têm cargos de poder e as crianças crescem com esse exemplo, crescem a pensar que tanto faz ser rapaz como rapariga. Isso não acontece em Portugal. A nossa auto-estima, enquanto mulheres, é muito mal trabalhada, crescemos a esconder os nossos atributos.

 

Lúcia Veríssimo

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